Texto e revisão técnica: Dra. Aline Rangel
Médica psiquiatra, psicoterapeuta e sexóloga · CRM-SP 132.102 | RQE 39.196
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Aversão sexual é uma experiência de medo, repulsa ou desconforto intenso diante de situações sexuais, que pode levar à evitação. Algumas pessoas descrevem “nojo de sexo”; outras desejam intimidade, mas percebem ansiedade ou vontade de se afastar quando o contato se torna sexual. A experiência merece ser compreendida dentro da história, da saúde e das escolhas de cada pessoa.
O termo “transtorno de aversão sexual” ainda aparece nas buscas, mas seu uso como diagnóstico mudou. Não querer sexo, recusar uma prática ou não sentir atração por alguém, isoladamente, não significa ter um transtorno. O cuidado começa por entender o que a pessoa sente, de onde vem o sofrimento e o que ela deseja para si.
Quando a aversão sexual merece avaliação?
Uma avaliação pode ajudar quando medo, repulsa ou evitação se repetem, causam sofrimento pessoal ou dificultam uma intimidade que a própria pessoa gostaria de viver. A pergunta central não é quantas relações ela tem, mas o que está acontecendo e como isso afeta suas escolhas.
Na consulta, vale investigar se a reação ocorre em qualquer situação ou apenas diante de determinada prática, parceria ou contexto. Também importa saber quando começou e se existe dor, pressão, medo de consequências ou outra dificuldade associada.
Evitar um contato indesejado, doloroso ou inseguro pode ser uma resposta de proteção. Nenhuma pessoa precisa demonstrar disponibilidade sexual para ser considerada saudável.
Aversão sexual, baixo desejo, assexualidade e abstinência são diferentes
- Aversão sexual: envolve uma reação aversiva, como medo ou repulsa, diante de situações sexuais. Não é definida apenas pela frequência sexual.
- Baixo desejo: descreve pouco interesse sexual. Pode existir sem medo ou repulsa e precisa ser avaliado em seu contexto.
- Assexualidade: é uma orientação ou identidade geralmente relacionada a pouca ou nenhuma atração sexual. Não constitui, por si só, doença ou disfunção.
- Abstinência: refere-se a não praticar atividade sexual; esse comportamento, sozinho, não informa a orientação nem estabelece um diagnóstico.
- Dor sexual: pode levar à antecipação de desconforto e à evitação. Precisa de investigação própria, inclusive das possíveis causas corporais.
Culpa ou vergonha não separam assexualidade de um problema clínico. Uma pessoa assexual pode sofrer com estigma, cobrança ou incompreensão. A avaliação precisa identificar a origem do sofrimento, respeitar a identidade e evitar tentativas de “corrigir” a orientação. [1]
Leia também: Assexualidade, libido e relacionamentos e dor na relação sexual: avaliação e caminhos de cuidado.
O que mudou no DSM e na CID-11?
O DSM-IV-TR incluía o transtorno de aversão sexual como categoria específica. Essa categoria foi retirada no DSM-5 e não é apresentada como diagnóstico autônomo no DSM-5-TR.
A CID-11 também não mantém a antiga categoria de aversão sexual como um diagnóstico independente. Conforme a apresentação e os critérios, a avaliação pode considerar condições como transtorno de dor-penetração sexual ou fobia específica. Isso não significa que toda aversão corresponda automaticamente a uma dessas condições. [2] [3] [4]
O sofrimento continua sendo uma questão clínica mesmo quando o nome usado no cotidiano não coincide com uma categoria diagnóstica.
Quais fatores podem estar envolvidos?
Não é possível deduzir uma causa apenas pela palavra “aversão”. Na avaliação, podem ser explorados:
- medo, repulsa e expectativas negativas ligados ao contato sexual;
- experiências de dor ou de contato sexual indesejado;
- história de violência ou trauma, quando presente e quando a pessoa se sente pronta para conversar;
- crenças, cobranças e dificuldades relacionais relevantes para aquela história;
- mudanças de saúde ou de tratamento que coincidam com alterações da experiência sexual.
Esses itens orientam perguntas; não são uma lista de causas comprovadas para todas as pessoas. Não se deve presumir trauma, conflito conjugal ou uma explicação exclusivamente psicológica.
Uma pesquisa transversal com 1.363 adultos identificou um perfil de aversão sexual que se diferenciava de outros perfis de dificuldade sexual. O estudo ajuda a reconhecer experiências distintas, mas não permite estabelecer o que causou a aversão em cada participante nem qual tratamento seria o melhor. [5]
Como funciona a avaliação?
A consulta busca compreender a experiência sem exigir uma explicação pronta. Você pode descrever o que sente, em quais situações isso acontece e quais mudanças gostaria de alcançar. Não precisa relatar detalhes de experiências traumáticas antes de estar preparada ou preparado.
Podem ser investigados desejo, atração, medo, repulsa, dor, saúde mental, medicamentos e contexto relacional. Quando existe dor física ou outra queixa corporal, pode ser necessário cuidado presencial com ginecologia, urologia ou outras áreas. A avaliação em saúde sexual não deve substituir essa investigação.
Como pode ser o tratamento da aversão sexual?
O plano depende do que foi identificado e dos objetivos escolhidos pela pessoa. A literatura específica sobre tratamento ainda é limitada: inclui relatos clínicos e estudos exploratórios, que não sustentam promessas de cura nem um protocolo universal. [6] [7]
Conforme o caso, podem ser discutidos:
- Psicoterapia e terapia sexual: para compreender a experiência e trabalhar medo, repulsa, crenças ou padrões de evitação que a pessoa deseja modificar.
- Cuidado das condições associadas: dor, sintomas de ansiedade ou outras dificuldades precisam de avaliação e tratamento próprios.
- Revisão de medicamentos: quando há uma relação temporal com mudanças na função sexual. Não interrompa um tratamento por conta própria.
- Trabalho com a parceria: se a pessoa desejar, houver segurança e essa participação fizer sentido para o cuidado.
Algumas intervenções utilizam aproximação gradual de situações temidas. Quando indicada, essa abordagem deve ser planejada com um profissional, consentida e ajustada ao ritmo da pessoa. Não é uma orientação para se forçar a ter relações ou suportar dor. Um estudo exploratório com realidade virtual, por exemplo, avaliou apenas 15 adultos; seus resultados são preliminares. [7]
A meta é ampliar autonomia e reduzir sofrimento, com respeito aos limites pessoais. O tratamento não deve ser organizado para satisfazer uma exigência de frequência sexual.
Perguntas frequentes sobre aversão sexual
Sentir nojo de sexo significa ter um transtorno?
Esse sentimento, isoladamente, não estabelece um diagnóstico. Importam o contexto, a persistência, o sofrimento pessoal e o que a pessoa gostaria de viver ou mudar.
Aversão sexual acontece apenas com mulheres?
Não. A experiência pode ocorrer em pessoas de diferentes gêneros. A avaliação deve partir da história individual, sem presumir um padrão de acordo com o gênero.
Preciso me obrigar a ter relações para melhorar?
Não. Recusar ou interromper um contato é um direito. Qualquer proposta terapêutica precisa respeitar consentimento, segurança e possibilidade de pausa.
Existe remédio para aversão sexual?
A queixa, sozinha, não determina uma indicação de medicamento. A decisão depende de uma avaliação das condições presentes e dos benefícios e riscos de cada opção.

Dra. Aline Rangel Ibrahim
CRM-SP 132.102 | RQE 39.196
Médica psiquiatra, psicoterapeuta e sexóloga.
Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Residência Médica em Psiquiatria no Instituto de Psiquiatria da UFRJ (IPUB/UFRJ).
Especialista em Sexualidade Humana pelo Programa de Estudos em Sexualidade (PRO-SEX), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq/HC-FMUSP). Especialista em Farmacodependências e Dependências Comportamentais pelo PROJAD/UNIFESP. Especialista em Sono pelo Instituto do Sono/UNIFESP.
Mestre em Psicobiologia pela UNIFESP. Doutora em Psicologia, com ênfase em Sexualidade e Estudos de Gênero, pela UCES.
Atende presencialmente em São Paulo e por telemedicina para todo o Brasil.
Referências e leituras
- AASECT. Position on the Dignity and Rights of Asexual Individuals. Posicionamento profissional.
- American Psychiatric Association. DSM-5-TR: Sexual Dysfunctions. 2022.
- Organização Mundial da Saúde. CID-11: transtorno de dor-penetração sexual (HA20).
- Reed GM et al. Disorders related to sexuality and gender identity in the ICD-11. World Psychiatry. 2016;15:205–221. Discussão das mudanças propostas na classificação.
- Lafortune D et al. Is Sexual Aversion a Distinct Disorder or a Trans-Diagnostic Symptom across Sexual Dysfunctions? A Latent Class Analysis. Journal of Sex & Marital Therapy. 2024;50:105–120. Estudo transversal.
- Sexual Aversion, Disgust, and Fear of Intimacy: A Comprehensive Case History Using a Multimodal Therapeutic Approach. Relato clínico; seus resultados não permitem generalizar a eficácia do tratamento.
- Lafortune D et al. Virtual reality exposure therapy for sexual aversion: a proof-of-concept study on acceptability, adequacy, and clinical effects. The Journal of Sexual Medicine. 2025;22:124–131. Estudo exploratório.
