Dra. Aline Rangel
Médica psiquiatra, psicoterapeuta e sexóloga.
CRM-SP 132.102 | RQE 39.196
Publicado em 05/11/2026
Quando alguém pensa em anorexia ou bulimia, costuma imaginar uma menina adolescente, muito magra, preocupada em emagrecer. Essa imagem é tão conhecida que pode funcionar como uma espécie de filtro: se a pessoa à nossa frente não corresponde a ela, os sintomas correm o risco de ser interpretados de outra maneira.
Considere quatro situações ilustrativas, que não são relatos de pacientes: um homem que organiza a vida em torno da musculação e restringe a alimentação para definir o corpo, uma adolescente autista que deixa de comer depois de episódios de engasgo, uma mulher com corpo maior cuja perda rápida de peso é elogiada, e uma pessoa trans cuja alimentação passa a ser rigidamente controlada em meio a sofrimento com o próprio corpo. Nenhuma dessas descrições, sozinha, fecha um diagnóstico. Todas justificam perguntas clínicas que talvez não fossem feitas se procurássemos apenas o perfil considerado “típico”.
O transtorno alimentar não é definido pelo tipo de corpo, pelo gênero ou pela identidade de quem sofre. É definido pelo padrão de sintomas, pelas suas consequências e pelos critérios diagnósticos pertinentes. A questão é reconhecer quando os nossos instrumentos, nossas expectativas e as condições de acesso ao cuidado dificultam esse reconhecimento.
Em poucas palavras: transtornos alimentares podem ocorrer em homens, mulheres, crianças, adolescentes, pessoas LGBTQIAPN+, pessoas autistas, pessoas de diferentes origens raciais e sociais e indivíduos de qualquer faixa de peso. Alguns grupos enfrentam formas específicas de pressão corporal, barreiras de atendimento e vieses diagnósticos. Isso não significa que pertença a um grupo produza automaticamente um transtorno.
O problema começa antes do diagnóstico: quem costuma ser reconhecido?
As classificações diagnósticas atuais descrevem anorexia nervosa, bulimia nervosa, transtorno da compulsão alimentar, transtorno alimentar restritivo evitativo (TARE), pica e transtorno de ruminação-regurgitação, entre outras apresentações. Elas não definem uma população exclusiva para cada condição. Para compreender os critérios completos da CID-11, veja o nosso guia principal de transtornos alimentares.
O problema é que a prática clínica não se resume a consultar uma classificação. Primeiro, alguém precisa reconhecer que existe uma queixa, fazer perguntas adequadas, interpretar as respostas e encaminhar a pessoa. Se o profissional só associa risco a uma adolescente muito magra, pode não investigar restrição significativa num homem musculoso, numa mulher de meia-idade ou numa pessoa com obesidade.
Uma análise publicada em 2024 chamou atenção para a história dos próprios instrumentos de avaliação: grande parte das medidas e intervenções foi desenvolvida tomando como referência mulheres jovens, brancas, cisgênero e heterossexuais. Isso não invalida esses instrumentos, mas alerta para problemas de validade e representatividade quando são utilizados sem considerar outras experiências corporais e culturais.
Na minha forma de organizar uma avaliação, procuro separar o que a pessoa faz, o que sente, o que teme e quais consequências já apareceram. Essa distinção ajuda a evitar dois erros opostos: não reconhecer um transtorno porque a pessoa parece saudável ou atribuir um diagnóstico a qualquer comportamento alimentar fora de um padrão esperado.
Por que determinados quadros passam despercebidos?
A expectativa antecede a entrevista.
Muscularidade, evitação sensorial e estigma podem não ser investigados.
O sofrimento não corresponde à aparência imaginada.
Perde-se a oportunidade de cuidado oportuno.
Diagrama editorial sobre possíveis barreiras ao diagnóstico. Não representa um mecanismo universal nem uma sequência inevitável.
Homens e meninos: quando a preocupação não é ser magro, mas ser musculoso
Um homem pode passar muitas horas calculando macronutrientes, evitar compromissos que interfiram nos treinos, fazer exercício apesar de lesões e viver com a sensação de nunca estar suficientemente definido. Pode haver perda da flexibilidade alimentar, sofrimento e prejuízo, mesmo quando a aparência é socialmente elogiada.
Muscularidade não é, por si, um transtorno. Exercício físico, planejamento nutricional e objetivos estéticos podem fazer parte de uma vida saudável. O sinal de alerta aparece quando as regras se tornam inflexíveis, a interrupção de um treino produz sofrimento intenso, o corpo passa a organizar a autoestima ou surgem métodos perigosos de controle de peso e composição corporal.
Estudos sobre a apresentação de sintomas em homens identificam preocupações com tamanho muscular, alimentação rigidamente “limpa”, culpa por determinados alimentos e compulsividade relacionada ao exercício. Parte desses fenômenos pode não aparecer com a mesma clareza em questionários centrados apenas no desejo de emagrecer.
Na entrevista, perguntas sobre treinamento, mudanças ponderais, uso de suplementos, anabolizantes, vômitos, compensações e isolamento podem ser mais produtivas do que perguntar apenas “você tem medo de engordar?”. Também é preciso diferenciar transtorno alimentar, transtorno dismórfico corporal, uso de substâncias e práticas esportivas sem sofrimento significativo.
Não considero adequado presumir que um homem será menos afetado ou precisará de menos cuidado. O estigma de que transtornos alimentares seriam “doenças femininas” pode tornar mais difícil procurar ajuda ou contar a alguém o que está acontecendo.
Pessoas LGBTQIAPN+: identidade não é doença, mas discriminação pode importar
A literatura sobre minorias sexuais e de gênero descreve, em diferentes amostras, maior frequência de alterações alimentares e sofrimento com o corpo. Uma revisão sistemática de 2024 reuniu 30 estudos sobre estresse de minoria e identificou associações entre experiências como discriminação, rejeição e violência, vergonha, sofrimento emocional e comportamentos alimentares desordenados.
Estresse de minoria não é simplesmente “ter uma identidade minoritária”. É a carga adicional que pode decorrer de exposição reiterada a preconceito, ameaça de rejeição, violência ou necessidade de ocultar aspectos de si. Ele pode coexistir com fatores que também afetam pessoas fora dessas populações, como vulnerabilidade familiar, ansiedade, experiências traumáticas ou relações difíceis com comida e corpo.
Em pessoas trans e não binárias, é especialmente importante não confundir disforia de gênero, insatisfação corporal e psicopatologia alimentar. Pode haver interseções, mas elas não são intercambiáveis. A busca de mudanças corporais ou o sofrimento relacionado a características sexuais não constitui, por si, anorexia ou bulimia. O diagnóstico depende de critérios clínicos e da investigação das motivações, dos comportamentos e dos riscos.
O cuidado afirmativo deve perguntar como cada pessoa nomeia seu corpo, quais procedimentos ou mudanças deseja, que experiências de discriminação viveu e quais estratégias de enfrentamento utiliza. Pressupor que toda restrição alimentar seja “causada” pela orientação sexual ou identidade de gênero seria uma interpretação reducionista, não uma conclusão científica.
Na prática, a pergunta que prefiro não perder é: o comportamento alimentar está ajudando a pessoa a viver de acordo com suas necessidades ou se tornou uma fonte persistente de sofrimento, prejuízo e risco? A resposta precisa ser construída com a própria pessoa.
Veja também o conteúdo sobre cuidado em saúde da população LGBTQIA+.
Pessoas autistas: seletividade não é automaticamente TARE
Diferenças sensoriais, preferências por texturas, dificuldades com cheiros, necessidade de previsibilidade e particularidades da interocepção podem modificar a alimentação de pessoas autistas. Isso não significa que toda seletividade seja patológica ou que deva ser tratada como transtorno alimentar.
No transtorno alimentar restritivo evitativo, ou TARE, a restrição pode decorrer de características sensoriais, baixo interesse em comer ou medo de consequências desagradáveis, como vômitos e engasgos. Para o diagnóstico, é necessário verificar repercussões relevantes, como inadequação nutricional, prejuízo de crescimento, dependência de suplementação ou comprometimento importante do funcionamento psicossocial.
Uma metanálise publicada em 2025 reuniu 21 estudos e encontrou coexistência relevante entre autismo e TARE. Entre os participantes autistas incluídos, a estimativa combinada de TARE foi de 11,41%, mas o intervalo de confiança era amplo, de 2,89% a 35,76%. Apenas três estudos contribuíram para essa direção da análise. Portanto, esse percentual não deve ser apresentado como prevalência brasileira ou como risco individual para toda pessoa autista.
Na avaliação, é importante saber como a alimentação se organizava desde a infância, se houve mudança recente, se existem dor ou condições gastrointestinais, se há medo de consequências adversas e se a pessoa consegue satisfazer suas necessidades nutricionais com segurança. Intervenções podem exigir adaptações sensoriais e comunicação acessível, sem impor exposição alimentar coercitiva.
E quando há TDAH? Impulsividade é apenas uma parte da história
Pessoas com TDAH podem relatar alimentação pouco estruturada, esquecimento de refeições, mudanças no apetite associadas a medicamentos, impulsividade e dificuldades de planejamento. Algumas também apresentam episódios compulsivos ou outras condições psiquiátricas associadas. Entretanto, TDAH não explica automaticamente compulsão alimentar, e comer de maneira irregular não confirma nenhum dos dois diagnósticos.
Investigo a sequência dos episódios, o grau de perda de controle, o sofrimento posterior, a restrição ao longo do dia, o sono e a influência dos horários de medicação. É comum que uma formulação mais precisa mostre fenômenos que se sobrepõem, mas não são idênticos. Em alguns casos, a desnutrição ou a irregularidade alimentar também podem produzir dificuldades de atenção que merecem reavaliação após estabilização clínica.
A avaliação precisa distinguir impulsividade, comer emocional, fome intensa após jejum prolongado, efeitos farmacológicos e episódios que preencham critérios de transtorno da compulsão alimentar. Se o tema for relevante, aprofunde em TDAH e compulsão alimentar.
Corpos maiores: quando a perda de peso recebe elogios, mas encobre sofrimento
Pessoas com sobrepeso ou obesidade podem desenvolver bulimia nervosa, compulsão alimentar, restrição intensa e outras alterações clinicamente significativas. A aparência não revela a magnitude da restrição, o risco metabólico ou o sofrimento com o corpo. A evolução do peso ao longo do tempo é frequentemente mais informativa do que uma medida isolada.
Em determinadas situações, a perda ponderal rápida é celebrada por familiares ou profissionais sem que se investigue como ela ocorreu. Esse é um erro de avaliação. Vômitos autoinduzidos, exercícios apesar de exaustão, restrições rígidas, tonturas e prejuízo social merecem atenção independentemente do IMC.
A literatura descreve desafios específicos de pessoas em corpos maiores no tratamento, incluindo estigma de peso e demora em reconhecer quadros restritivos. Um estudo qualitativo de 2025 com 17 adultos que tiveram anorexia atípica relatou experiências de subvalorização da gravidade e dificuldades de acesso. Essa amostra pequena não permite estimar a frequência do fenômeno, mas ajuda a compreender mecanismos possíveis de exclusão do cuidado.
Raça, etnia, renda e acesso: a desigualdade pode começar na escuta
Há evidências de que pessoas de grupos racializados podem encontrar barreiras para receber diagnóstico e tratamento, mesmo quando apresentam sintomas relevantes. Uma revisão de 2026 discutiu estigma cultural, vieses profissionais, critérios e instrumentos que podem não captar todas as apresentações, dificuldades de acesso e sub-representação em pesquisas.
Os dados quantitativos mais disponíveis provêm de países como Estados Unidos e Reino Unido. Não seria cientificamente adequado transportar automaticamente suas prevalências ou magnitudes para o Brasil. Nosso contexto tem características próprias de desigualdade regional, racismo, renda, acesso a especialistas e organização dos serviços de saúde.
Ainda assim, a questão clínica é pertinente: quem recebe perguntas sobre restrição, purgação, compulsão ou sofrimento corporal e quem recebe apenas aconselhamento para emagrecer? Quem consegue tratamento especializado? Quem não é acreditado quando relata uma dificuldade alimentar?
Também precisamos distinguir insegurança alimentar e restrição motivada por falta de recursos de uma restrição governada por medo de ganhar peso ou por regras patológicas. Uma situação não exclui a outra. O diagnóstico exige considerar a realidade material da pessoa, sem patologizar condições sociais nem deixar de tratar sofrimento clinicamente significativo.
Crianças e adolescentes: crescimento e desenvolvimento mudam a avaliação
Uma criança que passa a evitar alimentos, um adolescente que reduz rapidamente a alimentação ou uma jovem que pratica exercícios compulsivamente não devem ser avaliados apenas por comparação com o peso de adultos. A trajetória do crescimento, o desenvolvimento puberal, a velocidade das mudanças e a participação da família importam.
A restrição pode comprometer o desenvolvimento mesmo quando o peso não parece dramaticamente baixo. Em adolescentes, episódios de compulsão, práticas compensatórias, sofrimento com a imagem corporal e isolamento também podem merecer investigação antes que o quadro se torne evidente para outras pessoas.
O envolvimento familiar costuma ser importante, mas não deve ser confundido com atribuição de culpa. As relações familiares podem constituir fonte de apoio, de conflito ou de ambas, e uma intervenção eficaz precisa compreender cada contexto. Para adolescentes LGBTQIA+, o cuidado deve considerar ainda situações de estigma e segurança no ambiente escolar e familiar.
Como eu organizo a investigação quando o quadro não parece “típico”
O ponto de partida não é procurar sinais estereotipados. É perguntar de maneira suficientemente aberta para permitir que o problema apareça em sua forma particular.
| O que pode passar despercebido | Pergunta clínica mais útil | Por que importa |
|---|---|---|
| Homem com rotina rígida de musculação | O que acontece quando você não consegue treinar ou flexibilizar sua alimentação? | Investiga sofrimento, rigidez e risco sem presumir diagnóstico. |
| Pessoa autista com seletividade | Essa restrição afeta nutrição, crescimento, vida social ou segurança? | Diferencia particularidade sensorial de TARE e de condições médicas. |
| Pessoa trans ou não binária | O que significa para você a mudança corporal desejada e como isso se relaciona à alimentação? | Diferencia identidade, disforia, pressões e sintomas alimentares. |
| Pessoa com corpo maior | Como ocorreu a mudança de peso? Houve compensação, medo, desmaios ou perda de controle? | Evita subestimar risco por causa da aparência. |
| Pessoa com insegurança alimentar | Há comida suficiente e acessível? Quais restrições são involuntárias? | Evita transformar desigualdade em diagnóstico. |
Além da entrevista, utilizo a história de peso e crescimento quando relevante, avaliação de risco, rastreio de comorbidades, uso de medicamentos, condições clínicas e exames conforme indicação. Instrumentos psicométricos podem apoiar o raciocínio, mas seus resultados devem ser interpretados segundo validade, contexto e perfil da população estudada.
É especialmente importante reconhecer sinais que exigem atendimento presencial rápido: desmaios, desidratação, palpitações importantes, dor torácica, confusão, fraqueza intensa, incapacidade de comer ou beber, purgação frequente e risco de autoagressão ou suicídio. Nesses casos, a prioridade não é SEO, peso ou estética. É segurança clínica.
Tratamento sensível ao contexto não significa tratamento menos rigoroso
Diretrizes clínicas recomendam abordagens baseadas em evidências e avaliação interdisciplinar conforme diagnóstico, idade, gravidade e riscos. Algumas intervenções exigem adaptações de comunicação, acolhimento afirmativo, atenção a necessidades sensoriais, suporte familiar ou medidas para reduzir barreiras de acesso. Essas adaptações não substituem o tratamento específico do transtorno alimentar.
Por exemplo, se uma pessoa autista tem TARE, considerar características sensoriais é parte da formulação, não um motivo para ignorar a desnutrição. Se uma pessoa trans tem bulimia, o cuidado afirmativo não dispensa tratamento da bulimia. Se uma pessoa com corpo maior tem instabilidade clínica, o peso não pode servir como argumento para adiar a avaliação.
Quando percebo sofrimento alimentar, procuro organizar uma pergunta central junto da pessoa: o que precisa ser tratado com urgência, o que mantém o problema e quais condições de cuidado tornariam possível uma mudança sustentada? Essa formulação deve orientar as decisões, não o estereótipo.
Perguntas frequentes
Transtornos alimentares afetam homens?
Sim. Podem ocorrer em homens e meninos. Em alguns casos, as preocupações se concentram em muscularidade, definição corporal, exercício ou alimentação rígida, mas não existe uma apresentação masculina única.
Pessoas autistas têm necessariamente TARE?
Não. Diferenças sensoriais e seletividade alimentar não equivalem automaticamente a TARE. O diagnóstico exige critérios e repercussões clínicas ou psicossociais relevantes.
Pessoas LGBTQIA+ desenvolvem transtornos alimentares por causa da sua identidade?
Não é correto estabelecer essa causalidade. Estudos identificam associações entre estresse de minoria, discriminação e alguns comportamentos alimentares, em interação com muitos outros fatores.
É possível ter anorexia ou outro transtorno alimentar sem estar abaixo do peso?
Há apresentações restritivas clinicamente significativas e outros transtornos alimentares em diferentes faixas de peso. O risco precisa ser avaliado pela história, pelos comportamentos e pelos sinais clínicos, não apenas pelo IMC.
Quando devo procurar uma avaliação psiquiátrica?
Quando alimentação, exercício ou preocupações com o corpo se tornaram persistentes e trazem sofrimento, prejuízo ou risco. Na presença de sinais de urgência, procure atendimento presencial imediato.

Dra. Aline Rangel
CRM-SP 132.102 | RQE 39.196
Médica psiquiatra, psicoterapeuta e sexóloga.
Graduada em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde realizou residência médica em Psiquiatria no Instituto de Psiquiatria (IPUB/UFRJ).
Especialista em Sexualidade Humana pelo Programa de Estudos em Sexualidade (PRO-SEX), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq/HC-FMUSP). Formação em Farmacodependências e Dependências Comportamentais pelo PROJAD/UNIFESP e em Sono pelo Instituto do Sono/UNIFESP. Mestre em Psicobiologia pela UNIFESP e doutora em Psicologia pela UCES.
Atendimento presencial em São Paulo e por telemedicina para o Brasil, conforme indicação clínica.
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