Os análogos de GLP-1 estão transformando o tratamento da obesidade. A semaglutida (Ozempic®, Wegovy®, Rybelsus®, Extensior® e Poviztra®) e a tirzepatida (Mounjaro®) ampliaram de forma concreta as possibilidades terapêuticas para uma doença crônica, multifatorial e frequentemente atravessada por estigma, atraso no diagnóstico e frustração terapêutica.
A obesidade e a saúde mental são temas interligados que têm saído das discussões restritas a profissionais da saúde, entre pesquisadores e na saúde pública. Ganharam destaque na população leiga que quer ter acesso à informação de qualidade, além de buscar alternativas efetivas no cuidados desses temas fundamentais na garantia de um estado de saúde e bem estar . Neste artigo, discutiremos o impacto da Semaglutida e Tirzepatida nesse contexto.
Hoje, a discussão já não é apenas se existem medicamentos eficazes para obesidade. A questão mais séria passou a ser outra: estamos prontos para utilizá-los com responsabilidade clínica, ética e científica?
No Brasil, a Anvisa aprovou a semaglutida para controle crônico do peso e, mais recentemente, aprovou nova indicação da tirzepatida para adultos com obesidade ou com sobrepeso associado a comorbidades — sempre como parte de um plano terapêutico mais amplo.
Obesidade não é falha moral, nem simples questão estética
O mês de março que se findou foi dedicado a campanhas de conscientização sobre a obesidade, e trazer essa conversa neste artigo, se tornou especialmente relevante após estas campanhas.
Obesidade não pode ser reduzida a “falta de disciplina”, a um fracasso individual ou a um problema puramente estético. Trata-se de uma condição crônica com determinantes biológicos, psicológicos, comportamentais, sociais e ambientais. Quando a medicina reduz obesidade a aparência corporal, ela erra. Quando a sociedade a reduz a caráter, erra ainda mais.
As diretrizes atuais e a literatura científica sustentam precisamente o contrário: estamos diante de uma condição médica complexa, com repercussões metabólicas, cardiovasculares e psíquicas relevantes.
Semaglutida e tirzepatida mudaram o cenário do tratamento da obesidade
Sobre esta afirmação não há o que discutir: semaglutida, agonista do receptor de GLP-1, e tirzepatida, agonista duplo de GIP e GLP-1, modificaram o cenário da efetividade do tratamento farmacológico da obesidade.
No estudo SURMOUNT-1, a tirzepatida mostrou redução substancial e sustentada de peso em adultos com obesidade ou sobrepeso sem diabetes. Além disso, pacientes obesos com apneia do sono associada e tratados apresentaram redução significativa no índice de apneia-hipopneia (IAH) — ou seja, menos interrupções respiratórias por hora de sono.
A semaglutida, por sua vez, demonstrou benefício cardiovascular em pessoas com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular estabelecida no estudo SELECT.
Isso desloca o debate: tratar obesidade não é apenas promover emagrecimento, mas reduzir risco clínico e ampliar saúde.
Vergonha e medo de tratar a obesidade: um ponto essencial na prática psiquiátrica
Na prática clínica, muitos pacientes psiquiátricos têm medo ou vergonha de considerar medicações como semaglutida e tirzepatida. Às vezes, a vergonha vem da ideia de que estariam “apelando” ou usando a medicação como “bengala”. Em outros casos, vem do receio de serem julgados — por familiares, por outros profissionais ou por si mesmos — como se buscar tratamento medicamentoso para obesidade representasse fraqueza moral, vaidade ou incapacidade de “resolver sozinho”.
Infelizmente, esse tipo de experiência de gordofobia é muito frequente em pacientes com transtornos psiquiátricos e obesidade associada — inclusive praticada por nós, profissionais da saúde. O que as pesquisas revelam é que o estigma relacionado ao peso e ao tratamento está associado a pior cuidado da saúde, maior evitação de cuidados e maior sofrimento psicológico para quem apresenta sobrepeso ou obesidade.
Esse ponto é ainda mais relevante porque pacientes psiquiátricos frequentemente pertencem a um grupo de maior risco para obesidade. A relação entre obesidade e sofrimento mental pode ser bidirecional: a evidência é mais robusta para a associação recíproca entre obesidade e depressão, embora também haja interseções importantes com ansiedade, transtornos alimentares e outros transtornos mentais graves.
Além disso, pessoas com transtorno mental grave têm prevalência de sobrepeso e obesidade notadamente elevada quando comparadas à população geral — o que decorre de mecanismos múltiplos, incluindo fatores comportamentais, sociais, inflamatórios, iatrogênicos e relacionados ao uso de psicofármacos. Em sentido inverso, a própria obesidade pode associar-se a sofrimento psíquico, pior autoestima, maior carga de estigma e piora do curso de transtornos mentais.
Por isso, quando há comorbidade bem caracterizada, o tratamento medicamentoso da obesidade não deve ser visto como superficial ou secundário dentro da psiquiatria. Bem indicado, ele pode ser uma ferramenta importante dentro de um projeto terapêutico mais amplo.
Nessa mesma direção, o fenômeno já descrito informalmente nos EUA como “Ozempic shaming” expõe que parte dos pacientes teme ser desqualificada por usar uma medicação legítima para uma doença real.
O uso da Semaglutida e da Tirzepatida no tratamento da obesidade com transtornos psiquiátricos comórbidos não substitui psicoterapia, não dispensa manejo do comportamento alimentar, não elimina a necessidade de revisão de psicofármacos potencialmente associados a ganho de peso e/ou alterações metabólicas, tampouco resolve sozinho a dor emocional. Mas, em casos selecionados, pode reduzir carga clínica, ampliar adesão ao cuidado, melhorar parâmetros metabólicos e ajudar a interromper um ciclo em que obesidade e sofrimento mental passam a se retroalimentar.
O ponto central não é medicalizar indiscriminadamente, mas sim integrar com critério fármacos como semaglutida e tirzepatida ao tratamento.
Compulsão alimentar e obesidade não são a mesma coisa
Uma correção clínica importante precisa ser feita desde o início: compulsão alimentar e obesidade não são sinônimos.
Muitos pacientes com obesidade não apresentam compulsão alimentar, e muitos pacientes com compulsão alimentar não têm necessariamente obesidade grave. Quando essas dimensões são tratadas como equivalentes, perde-se precisão diagnóstica e, consequentemente, qualidade de cuidado.
O tratamento responsável da compulsão alimentar exige investigar perda de controle alimentar, episódios compulsivos, comer emocional, ciclos de restrição e descontrole, vergonha após ingestão, história de dietas, sintomas ansiosos e depressivos, privação de sono, impulsividade e contexto relacional. Em outras palavras, o peso corporal não substitui a avaliação psicopatológica e comportamental.
Tratamento com “caneta emagrecedora” é mais do que conhecer dose e efeito adverso
Usar semaglutida ou tirzepatida com responsabilidade não significa apenas saber titular dose, manejar náusea ou reconhecer contraindicações. Significa saber quem é o paciente à sua frente.
Significa avaliar indicação real, risco metabólico, história ponderal, comportamento alimentar, contexto psiquiátrico, medicamentos em uso, expectativas e capacidade de adesão a seguimento longitudinal. A boa prescrição não se resume à “caneta”. Ela depende de diagnóstico, enquadre, monitorização e continuidade.
Há uma camada ética delicada no uso dessas medicações fora de um raciocínio clínico consistente. Quando um recurso potente para o tratamento da obesidade passa a circular como símbolo de emagrecimento rápido, desejo de consumo ou adequação estética, a medicina fica vulnerável à banalização. Nem toda urgência de emagrecer corresponde a uma boa indicação. Nem toda perda de peso corresponde a ganho de saúde.
Prescrever bem exige resistir ao moralismo antigo que tanto trouxe estigma à pessoa obesa, mas igualmente à euforia farmacológica contemporânea que tenta resolver tudo com uma “pílula mágica” — neste caso, “caneta mágica”.
Obesidade exige cuidado crônico: não acredite em solução rápida
Outro ponto fundamental é alinhar expectativas. Obesidade é uma doença crônica e medicações como semaglutida e tirzepatida não devem ser apresentadas como solução rápida para um problema complexo. Elas podem ser ferramentas muito importantes, entretanto, seu uso precisa estar inserido em um plano de cuidado mais amplo, com acompanhamento, reavaliação e metas realistas.
Esse ponto fica ainda mais claro quando observamos os dados mais recentes sobre o que acontece após a suspensão do tratamento. Estudos mostram que, em muitos casos, a interrupção da medicação é seguida por recuperação de parte importante do peso perdido, mesmo com manutenção de orientações de estilo de vida. E o mais relevante: esse reganho não significa apenas voltar a engordar — ele também pode vir acompanhado da perda de parte das melhorias metabólicas conquistadas durante o tratamento.
Por isso, a discussão séria sobre essas medicações não deve girar apenas em torno da perda de peso inicial. Ela precisa incluir manutenção de resultados, seguimento longitudinal e responsabilidade terapêutica. Tratar obesidade com seriedade é também recusar a lógica do atalho e reconhecer que, em muitos casos, o cuidado precisa ser pensado para o longo prazo.
Desigualdade social e desigualdade de tratamento no Brasil
Outro aspecto essencial é o acesso a essas medicações. Para boa parte da população brasileira obesa, semaglutida e tirzepatida ainda são medicamentos de alto custo, o que abre uma discussão incômoda, mas necessária, sobre desigualdade terapêutica. Quem consegue pagar tem acesso mais fácil a uma tecnologia eficaz. Quem não consegue — o que corresponde a boa parte da população brasileira — muitas vezes segue restrito a abordagens fragmentadas, culpabilizantes ou menos efetivas.
Por isso, responsabilidade também envolve não glamourizar o tratamento, não reduzir o tratamento da obesidade a uma moda farmacológica e não perder de vista a necessidade de políticas públicas, regulação, incorporação criteriosa e cuidado multiprofissional.
No SUS, a ausência de incorporação de opções medicamentosas mantém desassistida justamente a população mais vulnerável, em desacordo com os princípios de equidade, universalidade e integralidade que deveriam orientar o cuidado. Em nota conjunta, a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO), a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) chamam atenção para esse cenário, afirmando que o acesso aos medicamentos permanece restrito a quem pode pagar e que a população que mais precisa continua sem assistência, com impacto particularmente grave sobre grupos socialmente mais vulneráveis.
[Leia a nota conjunta da ABESO, SBD e SBEM]
A pergunta certa sobre o uso da Semaglutida e da Tirzepatida
Talvez a melhor pergunta não seja mais se semaglutida e tirzepatida funcionam. Elas funcionam e isso importa. Pacientes psiquiátricos podes e, muitas vezes, devem usá-las quando há indicação clínica.
A pergunta mais importante é se conseguiremos incorporá-las de forma madura, sem repetir erros antigos: culpabilizar pacientes, ignorar compulsão alimentar, desconsiderar a saúde mental, medicalizar demandas puramente estéticas, abandonar o seguimento longitudinal e restringir o acesso a quem pode custear o tratamento.
No mês da obesidade, vale defender exatamente isso: uma medicina que reconheça a potência terapêutica desses medicamentos, mas que se recuse a transformá-los em milagre, moda ou privilégio — e que não repita os erros do passado no tratamento de uma condição tão complexa.
Perguntas frequentes sobre obesidade, compulsão alimentar, semaglutida e tirzepatida
Semaglutida e tirzepatida são indicadas para qualquer pessoa que queira emagrecer?
Não. Essas medicações devem ser prescritas com critério clínico, dentro de indicações adequadas e após avaliação individualizada. Elas não devem ser tratadas como recurso cosmético ou solução genérica para qualquer desconforto com o corpo.
Pacientes psiquiátricos podem usar semaglutida ou tirzepatida?
Sim. Não só podem como, muitas vezes, devem quando houver boa indicação clínica, avaliação cuidadosa da comorbidade e seguimento apropriado. Em muitos casos, a obesidade coexistente aumenta o risco clínico e merece tratamento estruturado.
Existe relação entre obesidade e transtornos mentais?
Sim. A associação é relevante e, para depressão, há evidência consistente de relação bidirecional. Além disso, pessoas com transtornos mentais graves têm prevalência e chance de obesidade maiores do que a população geral.
Compulsão alimentar e obesidade são a mesma coisa?
Não. Podem coexistir, mas não são equivalentes. Há pacientes com obesidade sem compulsão alimentar e pacientes com compulsão alimentar sem obesidade grave. A avaliação clínica precisa diferenciar essas situações.
Por que tantos pacientes têm vergonha de procurar tratamento para obesidade?
Porque o estigma do peso e do tratamento ainda é intenso. Vergonha, medo de julgamento e experiências prévias de desqualificação podem levar à evitação de cuidado e ao atraso terapêutico.
Referências
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária. (2023, 3 de janeiro). Wegovy (semaglutida). Serviços e Informações do Brasil.
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